Ambiente no Mundo

ESTRAGO DA NAÇÃO

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Floresta

A floresta mundial ocupa, actualmente, uma área de 3,866 mil milhões de hectares, quase um terço da superfície terrestre, sendo que 95% é natural e apenas os restantes 5% é plantada pelo Homem. Quase metade (47%) da floresta mundial é tropical, cerca de 33% é boreal e a restante localiza-se nas regiões temperadas. Nas últimas décadas, a destruição da floresta tem assumido, em algumas regiões, contornos dramáticos. Nos anos 80, a FAO e a UNEP estimaram que a deflorestação tropical foi da ordem dos 11,3 milhões de hectares por ano, ou seja, durante essa década teria sido destruída uma área mais de 10 vezes superior ao território português. Nos anos 90, a situação ainda piorou: foram destruídas florestas a um ritmo de 14,6 milhões de hectares por ano, um valor que é 2,8 vezes superior à área florestal que anualmente foi plantada em todo o Mundo.

Em 1995, um estudo feito pela UNEP, com recurso a imagens de satélite, apurou que das área florestais mundiais apenas 21,4% eram constituídas por floresta virgem com grande densidade de árvores. Cerca de 81% dessa florestas estão concentradas em apenas 15 países: Federação Russa, Canadá, Brasil, Estados Unidos, Congo, China, Indonésia, Perú, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Índia, Austrália e Papua Nova Guiné, por esta ordem de importância. Quase metade dessas florestas virgens localizam-se nos primeiros três países.

A floresta tropical é, sem dúvida, aquela que mais tem sofrido de delapidação, sendo que cerca de 70% dessa área destruída foi destinada para a agricultura e pastoreio. A taxa de regressão da floresta tropical atinge cerca de um por cento ao ano. No entanto, esta não é a única causa para a destruição florestal. Estima-se que a produção de madeira nas florestas se situe nos 3,335 mil milhões de metros cúbicos (m3), um terço dos quais na América do Sul e 27% apenas no Brasil. Mais de metade destas produções acabam por ser consumidas sob a forma de combustível, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento. Uma outra parte considerável é destinada para fins industriais, quer para a produção de pasta de papel, quer para outros sectores, com destaque para a construção civil e mobiliário.

O corte de florestas para a obtenção de madeira para a indústria é, muitas vezes, um factor adicional de destruição florestal. Com efeito, durante o abate das árvores de maior porte são destruídas muitas outras. Por exemplo, estima-se que em algumas regiões, por cada metro cúbico de madeira obtida é “desperdiçado” o dobro. Essa destruição agrava os problemas de erosão e de perda de biodiversidade, tornado em muitos casos irreversível a recuperação dessa áreas para fins florestais.

A importância das florestas não se esgota apenas nas próprias árvores. Estima-se que as florestas mundiais contenham metade da biodiversidade do planeta, sendo os habitats com maior riqueza de espécies e de endemismos, sobretudo no caso das tropicais. Apesar de 12% das florestas a nível mundial estarem classificadas como áreas protegidas, isso não tem evitado o risco de extinção de muitas espécies de mamíferos e aves que as utilizam como habitat. Outro factor de destruição são os fogos. Nos 10 últimos anos, de acordo com dados da FAO, em 46 países – incluindo Portugal – terão sido destruídos por incêndios cerca de 21 milhões de hectares de floresta. Na bacia do Mediterrâneo atingiu os 5 milhões de hectares. A Federação Russa viu desaparecer, em média, quase 800 mil hectares de floresta pura por ano, seguindo-se-lhe o Canadá (502 mil), Argentina (465 mil), Espanha (68 mil), México (67 mil) e Portugal (46 mil). Note-se que a situação portuguesa é particularmente grave, porque sendo o sexto país a nível mundial com maior área destruída, é o pior em termos relativos. Com efeito, se os fogos da década de 90 destruiram, por exemplo, na Federação Russa apenas 1% da sua área florestal e na Argentina 13,8%, em Portugal essa percentagem atingiu os 16,8%, o que é três vezes mais do que na vizinha Espanha.

Os fogos são, aliás, um factor destrutivo que é agravado por fenómenos climatéricos, como aconteceu entre 1997 e 2000 com intensos incêndios associados ao El Niño e ondas de calor estival. Nos últimos cinco anos intensos incêndios afectaram a Austrália, Brasil, Etiópia, Indonésia, México, a bacia do Mediterrâneo e a costa oeste dos Estados Unidos. Além disso, as tempestades invernais de Dezembro de 1999 também provocaram estragos significativos na Europa que representaram a perda de vários meses ou mesmo anos de produção florestal.

A importância ecológica e económica das florestas nas diversas regiões mundiais é enorme, pelo que a deflorestação tem impactes negativos muito significativos. Por exemplo, na África – que tem 22% da área mundial –, as florestas são um dos seus recursos naturais mais ricos. Apesar disso, nos anos 90 perdeu-se mais de 50 milhões de hectares de florestas africanas, a um ritmo de redução anual da ordem dos 0,74%. Da área perdida, 60% dos solos foram destinados à agricultura. Esta é, aliás, uma das regiões mais afectadas pela destruição florestal, com elevada gravidade em alguns países. Por exemplo, no Burundi cerca de 9% da floresta foi destruída nos anos 90, 4,3% nos Camarões, 3,9% no Ruanda e 3,7% no Níger. Em termos absolutos, o Sudão lidera, porém, em área destruída: cerca de 9,6 milhões de hectares nos últimos 10 anos. Os custos ecológicos da deflorestação são inestimáveis, mas no Uganda contabilizou-se uma perda económica da ordem dos 3 a 6 milhões de euros. Além disto, os conflitos bélicos também agravaram os processos de deflorestação nos últimos anos, sobretudo em Angola, Congo e Serra Leoa. Nesta continente, a floresta é também destruída para fins energéticos, face à pobreza da população. Estima-se que 80% da energia doméstica é obtida através da queima de madeira, à razão de cerca de dois quilogramas diários por habitante.

A perda de floresta no continente africano é também particularmente grave na região ocidental e norte. Por exemplo, em Marrocos, os sobreiros foram uma árvore bastante abundante desde a costa atlântica até ao sul de Marraquexe a ao Atlas, mas foram sendo derrubados ao longo dos tempos para a extracção do entrecasco utilizado para o curtimento de peles. Em 1947 existiam ainda 1,5 milhões de hectares, ou seja, mais do dobro da actual área em Portugal. Mas hoje são apenas 350 mil hectares. O estado produtivo dos montados no Norte de África é, por outro lado, extremamente débil, sobretudo devido à má gestão e aos fogos. A Argélia, Marrocos e Tunísia possuem actualmente 40% da área mundial de sobreiros, mas as produções de cortiça apenas representam 12%.

Se a África tem problemas, então na América do Sul a situação da floresta é quase calamitosa. Possuindo actualmente cerca de 964,4 milhões de hectares de floresta – mais de 100 vezes o território nacional –, a América Latina é a região do Mundo com maior diversidade florestal. Só na bacia amazónica existem 20 diferentes tipos de floresta. Nos últimos 10 anos, a América Central perdeu 12% da sua área florestal. No entanto, as perdas absolutas na América do Sul são impressionantes: nos anos 90 foram destruídos cerca de 37 milhões de hectares – uma área quatro vezes superior ao território português. A destruição da floresta é devida sobretudo à pressão da agricultura, sendo fomentada pela abertura de estradas. Estima-se que cada quilómetro de vias rodoviárias aberta na floresta amazónica resulte numa perda entre 400 e 2000 hectares de floresta. Por exemplo, no estado brasileiro de Pará, devido às rodovias, a deflorestação aumentou de 0,6% para 17,3% da área estatal entre 1972 e 1985.

Na Ásia, a situação não é tão dramática em termos globais, pois a perda de floresta neste continente foi de apenas 0,1% por ano. No entanto, em algumas regiões, como no sudoeste asiático – que inclui a Indonésia –, a deflorestação tem atingido um ritmo de 1% por ano, o que representou uma perda na última década de cerca de 23,3 milhões de hectares. Os fogos florestais são também uma das causas para esta regressão. Por exemplo, os incêndios de 1997 e 1998 – associado ao El Niño – destruiram cerca de 5,2 milhões de hectares na província indonésia de East Kalimantan, que corresponde a 25% da área dessa região.

No entanto, noutras regiões existem sinais bastante positivos. No Pacífico Noroeste e na Ásia Oriental a floresta aumentou 9% (17,4 milhões de hectares) nos últimos 10 anos. Este crescimento deveu-se sobretudo à China que iniciou nos anos 70 uma forte campanha de arborização. Se em 1993 a floresta chinesa ocupava 13,9% do território, no ano 2000 já chegava aos 17,5%, estimando-se que a área reflorestada tenha atingido já os 46,7 milhões de hectares. Mas não é caso único de promoção florestal. Por exemplo, no Butão existe um decreto governamental que estipula a obrigatoriedade de 60% do seu território estar coberto por florestas. O governo vietnamita, por sua vez, tem projectos para criar 5 milhões de hectares de floresta, enquanto as Filipinas prevêem plantar 2,5 milhões de hectares entre 1990 e 2015.

No Médio Oriente, as florestas são um ecossistema raro, por razões climatéricas, pelo que a sua degradação reveste-se de grande gravidade. Possuindo actualmente apenas 3,66 milhões de hectares de área florestal – pouco superior às florestas nacionais –, estimativas apontam para uma redução da ordem dos 44% nas últimas três dácadas. A frágil situação das florestas – se assim se podem chamar – agravou-se imenso em alguns países, como no Líbano e Palestina, onde se perdeu mais de metade da área existente há 30 anos atrás, sobretudo por via do corte e sobrepastoreio.
Na Europa, depois de alguns problemas sanitários e das chuvas ácidas, a floresta tem vindo globalmente a aumentar desde os anos 70, tendo-se registado um crescimento de cerca de 9,3 milhões de hectares.

Contudo, grande parte dessas novas áreas florestais não são de espécies indígenas. Em grande medida existe uma diferença de estratégia entre os países do Norte e Sul da Europa. Enquanto os países escandinavos plantam árvores com objectivos paisagísticos e de protecção, os países da bacia mediterrânica estiveram mais interessados em árvores de crescimento rápido para obtenção de receitas a curto-prazo. Daí que o eucalipto tenha sido uma das árvores mais adoptadas nesta região europeia nos últimos 30 anos. Por outro lado, a situação florestal na Federação Russa é particularmente preocupante. Além da degradação devida à indústria – e mesmo com o desastre de Chernobyl (Ucrânia) que inutilizou um milhão de hectares –, a floresta russa é bastante afectada pelos fogos florestais e por pragas de insectos. Um problema que também se alarga às antigas repúblicas da União Soviética. A crise económica tem levado à destruição de vastas áreas florestais na Arménia e Geórgia para a obtenção de madeira como combustível.

Também na América do Norte, as florestas, que representam 12% do total mundial, estão agora em franco crescimento. Apesar dos Estados Unidos e Canadá serem os maiores consumidores de madeira – cerca de 40% do total mundial –, as novas plantações conseguem exceder em muito os cortes e fogos florestais. O Canadá, que é o terceiro país mundial com mais área florestal (244,6 milhões de hectares), quadruplicou o ritmo de reflorestação entre 1975 e 1997, enquantos os Estados Unidos conseguiram também aumentar a sua área florestal natural em 4,5%. No entanto, nem tudo são aspectos positivos. A introdução de espécies exóticas, algumas práticas de gestão incorrectas têm tornado algumas áreas mais vulneráveis aos fogos e às pragas.

Por fim, as florestas boreais (ou taíga) do Ártico, constituídas sobretudo por abetos e pinheiros, estão também, globalmente, de boa saúde, pese embora estejam reportadas extensas destruições, sobretudo na Federação Russa. De qualquer modo, a FAO estima que desde o início da década de 90 tenha sido alargada a área de floresta boreal em cerca de 560 mil hectares, além de terem sido implementadas medidas de protecção relativamente rígidas. No entanto, em alguns países, como na Islândia, as plantações têm sido feitas com espécies não indígenas. Outro dos problemas da taíga é a sua fragmentação por vias rodoviárias, sobretudo nos países escandinavos, o que aumenta a sua fragilidade.


Floresta - situação em Portugal

Nos últimos 30 anos, a floresta portuguesa sofreu profundas alterações. Os povoamentos de eucaliptos – inexistentes em Portugal há 100 anos – ocupavam nos início dos anos 70 cerca de 200 mil hectares, mas sobretudo a partir da década de 80 invadiram áreas então ocupadas pelo pinheiro bravo ou antigas zonas agrícolas ou ocupadas por matos. Entre 1985 e 1995, a área de eucalipto teve um crescimento de quase 75%, situando-se actualmente em cerca de 670 mil hectares. O pinheiro bravo, a espécie que dominou a floresta nacional ao longo do século XX, registou um decréscimo de 276 mil hectares (menos 22%) em relação a 1985. Desta forma, a área de pinhal bravo atingiu, pela primeira vez nas últimas três décadas, um valor inferior a um milhão de hectares.

O «boom» da eucaliptização começou em Portugal a partir de 1978 – nesse ano existiam apenas 214 mil hectares –, mas os resultados do inventário mostram que foi na primeira metade dos anos 90 que as plantações desta espécie atingiram o seu auge. Em 1995, a Direcção-Geral das Florestas (DGF) apurou que existiam 367 mil hectares de eucalipto – ou seja, 55% da sua área total -, com menos sete anos. Ao invés, apenas existiam 80 mil hectares de pinhal bravo - 8,2% da sua área total – com idade inferior a oito anos. Tendo em conta que, em média, os fogos florestais dizimam, por ano, cerca de 50 mil hectares de arvoredo, dos quais mais de metade são pinheiros, significa que este decréscimo tem tendência a agravar-se ainda mais.

Em virtude do decréscimo da área de pinhais e resinosas, os montados, englobando sobreiro e azinheira, são agora o principal tipo de povoamento florestal – uma situação que já não ocorria há mais de um século –, embora com áreas totais inferiores às que se registavam em 1956 e 1984.

Segundo o inventário florestal, os montados ocupam quase 1,2 milhões de hectares, tendo a área de azinheira mantido a área de há 10 anos (462 mil hectares) e o sobreiro cresceu 7,4% em igual período, atingindo os 713 mil hectares. Contudo, apesar do aumento, os montados de sobro apresentam a pior situação sanitária da floresta: 17% da área de sobreiros – ocupando uma área de 121 mil hectares – apresentam danos acentuados e apenas 27% estão em boas condições fitossanitárias.

Aliás, nos últimos anos, a floresta portuguesa tem vindo a sofrer ataques de várias pragas. Alguns povoamentos de eucalipto em zonas marginais foram afectadas pela “phoracanta” e os sobreiros por várias pragas que têm provocado elevadas mortalidades sobretudo na zona do litoral alentejano. No caso dos pinheiros, após a “processionária” ter afectado vastas áreas florestais, a grande ameaça é agora a do nemátodo Bursephalenchus que começou, há três anos atrás, a atacar os pinhais da península de Setúbal e que já se alastra ao litoral alentejano, causando mortalidades elevadas.

Portugal não está, por outro lado, isento de culpas na contribuição para a destruição da floresta tropical. Nos últimos 15 anos, o crescimento do consumo nacional de madeiras tropicais – vulgarmente conhecidas por mogno – foi de 70%, o que coloca o nosso país no segundo lugar do “ranking” das importações na União Europeia, liderado pela França. Por exemplo, o nosso país importou em 1998 cerca de 640 mil metros cúbicos de madeira tropical em toros, folheados e contraplacados, sobretudo da África e Brasil.

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